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quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Momento de Reflexão.


                                      O Rouxinol e a Rosa.


- Ela disse que dançaria comigo se lhe levasse rosas vermelhas-
exclamou o estudante - nas estamos no inverno e não há uma única rosa no jardim...
Por entre as folhas, do seu ninho, no carvalho,
o Rouxinol o ouviu e, vendo-o ficou admirado...
- Não há nenhuma rosa vermelha no jardim! - disse o estudante,
com os olhos cheios de lágrimas. - Ah! Como a nossa felicidade depende 
de pequeninas coisas! Já li tudo quanto os sábios escreveram. A filosofia não tem 
segredos para mim e, contudo, a falta de uma rosa vermelha
é a desgraça da minha vida.
- Eis, afinal, um verdadeiro apaixonado! - disse o Rouxinol.
Tenho cantado o Amor noite após noite,
sem conhecê-lo no entanto;
noite após noite falei dele às estrelas,
e agora o vejo...
O cabelo é negro como a flor do jacinto
e os lábios vermelhos como a flor que deseja;
mas o amor pôs-lhe na face a palidez do marfim
e o sofrimento marcou-lhe a fronte.
- Amanhã à noite o príncipe dá um baile, murmurou o estudante,
e a minha amada se encontrará entre os convidados.
Se levar uma rosa vermelha,
dançará comigo até a madrugada.
Somente se lhe levar uma rosa vermelha...
Ah...Como queria tê-la em meus braços, 
sentir-lhe a cabeça no meu ombro,
e a sua mão presa a minha.
Não há rosa vermelha em meu jardim...e ficarei só;
ela apenas passará por mim...
Passará por mim ... e meu coração se despedaçará.
- Eis um verdadeiro apaixonado ... - pensou o Rouxinol!
Do que eu canto, ele sofre.
O que é dor para ele é alegria para mim.
Grande maravilha, na verdade, é o Amar!
Mais precioso que esmeraldas
e mais caro que opalas finas.
Pérolas e granada não podem comprá-lo,
nem se oferece nos mercados.
Mercadores não o vendem,
nem o conferem em balanças a peso de ouro.
- Os músicos da galeria - prosseguiu o estudante -
tocarão nos seus instrumentos de corda e, 
ao som de harpas e violinos,
minha amada dançará.
Dançará tão leve, tão ágil, 
que seus pés mal tocarão o assoalho e os cortesãos,
com suas roupas de cores vivas,
reunir-se-ão em torno dela.
Mas comigo não bailará,
porque não tenho uma rosa vermelha para dar-lhe...
- e atirando-se à relva,
ocultou na mão o rosto e chorou.
- Por que esta chorando? - perguntou um pequeno lagarto
a passar por ele, correndo, de rabinho levantado.
- É mesmo! Por que será? - indagou uma borboleta 
que perseguia um raio de sol.
Por quê? sussurrou uma linda margarida à sua vizinha.
- Chora por causa de uma rosa vermelha - informou o Rouxinol.
- Por causa de uma rosa vermelha? - exclamaram
- Que coisa ridícula!
E o lagarto, que era um tanto irônico, riu à vontade.
Mas o Rouxinol compreendeu a angustia do estudante e,
silencioso, no carvalho, pôs-se a meditar sobre o mistério do Amor.
Subitamente, abriu as asas pardas e voou.
Cortou, como uma sombra, a alameda,
e como uma sombra, atravessou o jardim.
Ao centro da relvado, esguia-se uma roseira.
Ele a viu. Voou para ela e pousou num galho.
- Dá-me uma rosa vermelha - pediu, 
e eu cantarei para ti a minha mais bela canção!
- Minhas rosas são brancas;
tão brancas quanto a espua do mar,
mais brancas que a neve das montanhas.
Procura minha irmã, a que enlaça o relógio-de-sol.
Talvez te ceda o que desejas.
Então o Rouxinol voou para a roseira,
que enlaçava o velho relógio-de-sol.
- Dá-me uma rosa vermelha - pediu, 
e eu te cantarei minha canção mais linda.
A roseira sacudiu-se levemente.
- Minhas rosas são amarelas 
como os cabelos dourados das donzelas,
ainda mais amarelas que o trigo que cobre os campos
antes da chegada de quem o vai ceifar.
Procura a minha irmã,
a que vive sob a janela do estudante.
Talvez ela possa te ajudar.
O Rouxinol então, dirigiu o voo para a roseira
que crescia sob a janela do estudante.
Da-me uma rosa vermelha - pediu, 
e eu cantarei a mais linda das minhas canções.
A roseira sacudiu-se levemente.
- Minhas rosas são vermelhas, 
tão vermelhas quanto os pés das pombas,
mais vermelhas que os grandes leques de coral 
que oscilam nos abismos profundos do oceano.
Contudo, o inverno regelou-me até as veias,
a geada queimou-me os botões
e a tempestade quebrou-me os galhos.
Não darei rosas este ano.
- Eu só quero uma rosa vermelha, repetiu o Rouxinol, - uma só rosa vermelha.
Não haverá meio de obtê-la?
- Há, respondeu a roseira,
mas é um meio tão terrível, 
que não ouso revelar-te.
- Dize. Não tenho medo.
- Se queres uma rosa vermelha, explicou a roseira,
hás de fazê-la de música, ao luar,
tingi-la com o sangue do teu coração.
Tens de cantar para mim com o peito
junto a um espinho.
Cantarás toda a noite para mim
e o espinho deve ferir teu coração 
e teu sangue de vida deve infiltrar-se 
em minhas veias e tornar-se meu.
- A morte é um preço exagerado para uma rosa vermelha - exclamou
o Rouxinol! - e a Vida é preciosa ...
É tão bom voar, através da mata verde 
e contemplar o sol em seu esplendor dourado 
e a lua em seu carro de pérola...
O aroma do espinheiro é suave, 
e suaves são as campânulas ocultas no vale,
e as urzes tremulas na colina.
Mas o Amor é melhor do que a Vida.
e que vale o coração de um pássaro 
comparado ao coração de um homem?
Abriu as asas pardas para o voo
e ergueu-se no ar.
Passou pelo jardim como uma sombra e, 
como uma sombra, atravessou a alameda.
O estudante estava deitado na relva,
no mesmo ponto em que o deixara,
com os lindos olhos inundados de lágrimas.
- Rejubilá-te - gritou Rouxinol!
Rejubilá-te; terás a tua rosa vermelha.
Vou fazê-la de música, ao luar.
O sangue de meu coração a tingirá.
Em consequencia só te peço que sejas verdadeiro amante, 
porque o Amor é mais sábio do que a filosofia;
mais poderoso que o poder ...
Tem as asas da cor da chama e da cor da chama tem o corpo.
Há doçura de mel em seus braços
e seu hálito lembra o incenso.
O estudante ergueu a cabeça e escutou.
Nada pode entender, porem, do que dizia o Rouxinol,
pois sabia apenas o que esta escrito nos livros.
Mas o carvalho entendeu e ficou melancólico,
porque amava muito o pássaro que construíra ninho em seus ramos.
- Canta-me um derradeiro canto - segredou-lhe,
sentir-me -ei tão só depois da tua partida.
Então o Rouxinol cantou para o carvalho, 
e sua voz fazia lembrar a água a borbulhar de uma jarra de prata.
Quando o canto finalizou, 
o estudante levantou-se, 
tirando do bolso um caderninho de notas e um lápis.
- Tem classe, não se pode negar - disse consigo, atravessando a alameda.
Mas terá sentimento? Não creio.
É igual a maioria dos artistas,
só estilo, sinceridade nenhuma.
Incapaz de sacrificar-se por outrem.
Só pensa em cantar, 
e bem sabemos quanto a arte é egoísta.
No entanto, é forçoso confessar,
possui maravilhosas notas na voz.
Que pena não terem significação alguma,
nem realizarem nada realmente bom.
Foi para o quarto, 
deitou-se e pensando na amada adormeceu.
Quando a luz refulgia no céu,
o Rouxinol voo para a roseira
e apoiou o peito contra o espinho.
Cantou a noite inteira,
e o espinho mais e mais foi se enterrando em seu peito,
e o sangue de sua vida lentamente se ecoou ...
Primeiro descreveu o nascimento do Amor  
no coração de um menino e uma menina;
e , no mais alto galho da roseira,
uma flor desbrochou,
extraordinária, pétala por pétala,
acompanhando um canto e outro canto.
Era pálida, a principio,
qual a névoa que esconde o rio,
pálida qual os pés da manhã e as asas da alvorada.
Como sombra de rosa num espelho de prata,
como sombra de rosa em água de lagoa era a rosa que 
apareceu no mais alto galho da roseira.
Mas a roseira pediu ao Rouxinol
que se unisse mais ao espinho.
- Mais ainda, Rouxinol!- exigiu a roseira, 
senão o dia raia antes que eu acabe a rosa.
O Rouxinol então apertou ainda mais o espinho
junto ao peito,
e cada vez mais profundo lhe saía o canto
porque ele cantava o nascer da paixão
na alma do homem e da mulher.
E tênue nuance rosa nacarou as pétalas,
igual ao rubor que invade a face do noivo
quando beija a noiva nos lábios.
Mas o espinho não lhe alcançava ainda o coração
e o coração da flor ainda continuava branco, 
pois somente o coração de um Rouxinol
pode avermelhar o coração de uma rosa.
- Mais ainda, Rouxinol - clamou a roseira,
raiar o dia antes que eu finalize a rosa.
E o Rouxinol, desesperado, calcou-se mais forte no espinho,
e o espinho lhe feriu o coração,
e uma punhalada de dor lhe traspassou.
Amarga, amarga lhe foi a angústia
e cada vez mais fremente foi o canto,
porque ele cantava o Amor que a morte aperfeiçoa,
o Amor que não morre nem no túmulo.
E a rosa maravilhosa tornou-se purpurina
como a rosa do céu oriental.
Suas pétalas ficaram rubras e, 
vermelho como rubi, seu coração.
Mas a voz do Rouxinol se foi enfraquecendo,
as pequeninas asas começaram a estremecer
e uma névoa cobriu-lhe o olhar,
o canto tornou-se débil
e ele sentiu qualquer coisa apertar-lhe a garganta.
Então, arrancou do peito o derradeiro grito musical.
Ouviu-o a lua branca,
esqueceu-se da aurora e permaneceu no cèu.
A rosa vermelha o ouviu,
e trêmula de emoção, abriu-se à aragem fria da manhã.
Transportou-o o eco, à sua caverna purpurina, 
nos montes, despertando os pastores de seus sonhos.
E ele levou-os através dos caniços dos rios
e eles transmitiram sua mensagem ao mar.
- Olha! Olha! Exclamou a roseira, a rosa esta pronta, agora.
Ao meio dia o estudante abriu a janela e olhou.
- Que sorte - disse - uma rosa vermelha!
Nunca vi rosa igual em toda a minha vida.
É tão linda que tem certamente um nome complicado em latim.
E curvou-se para colhê-la.
Depois, pondo o chapéu, correu à casa do professor.
- Disseste que dançarias comigo
se eu te trouxesse uma rosa vermelha, lembrou o estudante.
Aqui tens a rosa mais linda e vermelha de todo o mundo.
Hás de usá-la, hoje a noite, sobre ao coração,
e quando dançarmos juntos ela te dirá o quanto te amo.
A moça franziu a testa.
- Esta rosa não combina com o meu vestido, disse.
Demais, o capitão da guarda mandou-me joias verdadeiras,
e joias, todos sabem, custam muito mais do que flores...
- És muito ingrata! Exclamou o estudante, zangado.
E atirou a rosa a sarjeta,
onde a roda de um carro a esmagou.
- Sou ingrata? E o senhor não passa de um grosseirão.
E, afinal de contas, quem és?
Um simples estudante ... não acredito que tenhas fivelas de prata,
nos sapatos, como as tem o capitão da guarda... - e a moça
levantou-se e entrou em casa.
- Que coisa imbecil , o Amor! - Resmungou o estudante, afastando-se.
Nem vale a utilidade da lógica, 
porque não prova nada,
está sempre prometendo o que não cumpre
e fazendo acreditar em mentiras.
Nada tem de prático
e como neste século o que vale é a prática,
volto à Filosofia e vou estudar Metafísica.
Retornou ao quarto, 
tirou da estante um livro empoeirado e pôs-se a ler.


                                                             ( O.W. )
                                         Beijuusss,
                                                          Nallu Ferreira.




































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