- Assim que me vi do lado de fora, fiquei completamente paralisado, sabe? Me mantive por alguns minutos completamente perdido, de repente senti um vazio dentro de mim, uma angustia, um aperto no peito, um nó na garganta, ainda olhei para a porta que havia se fechado em minhas costas, e parado ali dei uma ultima olhada em tudo que estava ao meu redor. O engraçado é que, enquanto olhava tudo, um fleche surgiu na minha mente, não dos momentos ruins que vivi ali, mas sim, de todos os que fui feliz ao lado do meu irmão, da minha mãe ...
- Poxa JP, nem sei o que ti dizer.
- Não precisa dizer nada, afinal, há momentos na vida da gente que nada que possa ser dito alivia algumas dores.
- É, sei disso. Mas você foi para onde, já que ainda não tinha ajeitado nenhum canto para você?
- Para lugar nenhum, naquele dia, como já te disse, após ter saído de casa, fiquei um pouco perdido. Os pensamentos, sentimentos estavam completamente embaralhados na minha cabeça, sei que andei até a praia e fiquei por lá sentado, pensando em tudo o que acabara de acontecer comigo e adormeci ali mesmo. No dia seguinte, fui para Búzios, para a casa de uma amiga, conversei um pouco com ela e disse que viria para o Rio, só não revelei que ainda não tinha onde ficar chegando aqui. Não queria que se preocupasse comigo, já tinha vários problemas para resolver, eu não seria mais um.
- Hummmm, entendo.
- Dai, depois de algumas horas peguei um ônibus e quando vi tava aqui, completamente sozinho e sem saber que direção daria a minha vida, daquele momento em diante.
- Não conhecia ninguém aí não, nessa época?
- Conhecer até que conhecia, mas sabe como é né, eu estava completamente desorientado, perdidão mesmo e não queria contar para ninguém o que havia acontecido comigo. Acho que no fundo tava com vergonha de falar que tinha um pai como o meu, já que todos os meus amigos, tinham pais tão legais, uma família tão diferente que a minha ... com brigas sim, divergências, mas que era perceptível o carinho que tinham uns pelos outros.
- Sei o que quer dizer.
- Então, por um pouco de vergonha fiquei nesse dia meio que perambulando pelo Rio. Tava com uma grana, mas precisava controlar, pois tinha de comer, arrumar um canto para alugar, me locomover. Sei que quando vi, já tava mais uma vez na praia e que novamente, seria onde dormiria outra vez.
- Hummmm.
- No dia seguinte resolvi procurar um amigo que considero como a um irmão, pois já tava largadaço e precisava tomar um banho e mudar de roupa, pois tinha de começar a correr atrás de um trampo, não podia ficar perambulando pelas ruas do Rio sem direção nenhuma.
- Sim, mas você ainda não era modelo não?
- Sim, já era, mas não fazia muita coisa, apareciam alguns trabalhos. Tipo, pingava uma coisa aqui outra ali, mas nada com muita sequencia, entende?
- Sim, tô te entendendo.
- Fora que não podia aparecer na agência com a aparência de um mendigo. Tinha ao menos, de estar com uma cara do tipo "tô de boa", saca?
- Sim.
Continua.

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