- Como já lhe contei, em algum momento na minha infância, meu pai, que não era um exemplo de carinho para conosco, mas mantinha uma atitude amistosa e digna de admiração, em relação a sua postura como chefe da nossa família, se transformou num exemplo de ditador. Impondo regras a todos, inclusive à minha mãe. Eu, que desde bem sedo, sempre fui muito inquieto, vou falar levado mesmo, era constantemente alvo da fúria do meu pai. A cada arte praticada, não tinha conversa, era severamente castigado. Cresci dessa forma, mesmo consciente dos castigos, não deixando de fazer as coisas que gostava e por isso cada vez mais o meu relacionamento com ele, se tornava mais e mais difícil. Apesar de nunca ter o derrespeitado com palavras, sempre procurei deixar bem claro que jamais agiria ou faria algo, se isso não estivesse dentro daquilo que eu acreditasse, que achasse certo. E isso, acredito eu, foi fazendo com que ele desgostasse de mim. Logo que completei 18 anos, resolvi sair de casa, não querendo confrontar ninguém, quis sair porque não aguentava mais conviver embaixo do mesmo teto que ele, queria ter o meu canto mesmo, independente de como seria esse canto, o que importava mesmo era ter um pouco de paz, me ver podendo ser eu mesmo sem ser repreendido. Jamais quis me afastar da minha família, queria somente ter um canto que pudesse chamar de meu porto seguro, já que a casa do meu pai, sempre foi , por causa única e exclusivamente dele, o meu inferno.
- Nossa, pelo que você tá me falando, sua infância e adolescência foram terríveis.
- Não digo que foi totalmente terrível. Tive sim bons e saudosos momentos vividos ao lado do meu irmão, me lembro perfeitamente do jeito dele sempre carinhoso comigo, apesar da pouca idade, hoje percebo que ele era uma pequena criança grande, tinha o poder de me acalmar, acalentar, mesmo sendo eu seu total oposto. Tinha também a minha mãe, que assim como ele, apesar de todos os motivos para se tornar uma mulher amargurada por tudo o que constantemente vivenciava, era de uma doçura com os filhos, principalmente comigo, que de alguma forma estava sempre sendo julgado e castigado pelos meus atos, mesmo aqueles que podemos considerar, artes infantis.
- Do jeito que você fala dela, parece ser uma mulher digna de admiração.
- Sim, minha ligação com ela é muito maior do que apenas filho e mãe, admiro o modo que define a vida apesar de tudo. A sensação que tenho é que vive em perfeita harmonia com o universo, jamais em 25 anos de vida ouvi uma palavra rude sair de sua boca, mesmo quando não esta sorrindo, seu rosto transmite uma calmaria, uma serenidade contagiante, a simples presença dela junto à mim, me acalma, me traz ao centro. Consigo enxergar nela o meu irmão, assim como sempre consegui fazer o mesmo com ele. Chego a pensar que ele não só foi alguém que saiu de dentro dela junto à mim, mas sim, era parte verdadeiramente falando, da sua alma, e que sua estadia aqui teve que ser temporária, para que pudesse voltar ao seu real lugar a tempo de não deixa-la se perder jamais da sua real essência.
- Nossa JP, como foi linda essa forma que você usou para me passar o amor que sente pelos dois, numa simples definição, mas bem particular, você conseguiu me fazer compreender perfeitamente a essência de ambos e da forma mais linda e doce que pude presenciar alguém falando de um outro alguém. Obrigada mesmo, por essa demostração de confiança que você esta me dando. E logo eu, uma pessoa que você mal conhece.
- Que nada, não precisa agradecer mesmo, tá me fazendo tão bem estar falando com você.
- Que bom!
- Mas continuando ...
Sim.
Continua.

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